Acha que o stress é uma coisa da sua cabeça?

Os temas da Psicologia têm a tendência irritante para passarem por actos de (falta de ) vontade. “Isso são coisas da sua cabeça – tem de ir ao psicólogo”. É levemente ofensivo mas é pior do que isso; é – como direi? – pouco conhecedor. As emoções passam-se no corpo (onde estou a incluir o cérebro, que era parte do corpo, da última vez que verifiquei um manual de anatomia…); os pensamentos passam-se no cérebro, também eles como correntes electroquímicas; as sensações passam-se no corpo; e é o corpo que nos permite o movimento necessário aos comportamentos cuja orquestração se inicia no cérebro (corpo).

 

É lícito dizer-se, à luz da ciência moderna e não com conceitos ultrapassados do tempo da mãe do D. Afonso Henriques, que a Medicina trata de umas situações da saúde e a Psicologia de outras. A não ser, naturalmente, que estejamos a falar de temas de desenvolvimento pessoal, que assumem a forma quase de uma consultoria individual, e que não se inserem no ramo da saúde humana, da mesma forma que a formação não é um acto de saúde. Por isso, quando um médico o encaminha para um psicólogo, o que está a dizer, na realidade, é que aquilo que o aflige – o que lhe retira funcionalidade, ou bem-estar ou afecta a saúde psicológica ou médica – é melhor tratado com modelos de intervenção cuja especialidade é a Psicologia Clínica e da Saúde.

 

O stress não escapa às interpretações erradas que nos fazem sentir mais como pessoas “afanicadas” do que como pessoas com um tema de saúde. Muita da responsabilidade por este status quo interpretativo vem da ausência, desconhecimento, ou pouco uso de medidas tangíveis, concretas e evidentes que nos mostrem (a nós, público e a nós profissionais de saúde) que o diagnóstico que estamos a fazer não é uma matéria de discussão subjectiva. Ninguém se sente culpabilizado ou de fraca vontade quando parte uma perna, certo? Está lá a radiografia que demonstra a perna partida, e está lá o conhecimento científico que impede qualquer raciocínio tonto a propósito de se ter partido uma perna por causa de uma qualquer falha de carácter. Já em Psicologia não se fazem análises, não se fazem radiografias ou ecografias e, regra geral, os psicólogos não mostram os critérios de diagnóstico internacionalmente definidos que permitem diagnosticar todas as perturbações no âmbito de actuação desta disciplina. Por isso, vai ficando tudo muito no ar, com a sensação de que se está a falar de temas subjectivos e que estão no fim da linha de justificação para o mal-estar e sintomas que as pessoas sentem.

 

No entanto, existem formas de demonstração de diagnósticos. Poucas, pouquíssimo usadas, muito recentes e habitualmente caras. Hoje falo-lhe do mapa ou perfil circadiano de cortisol, fundamental para a demonstração preto-no-branco de um problema de stress crónico. Mas para isso vou ter de lhe explicar minimamente o que é o cortisol – chamada a hormona do stress – e qual o seu papel na reacção de stress, verdade?

 

Por cima dos seus rins estão as glândulas adrenais ou supra-renais, compostas por duas partes, cada uma responsável pela produção de um conjunto específico de hormonas. Quando o seu cérebro identifica algo como um agente stressor (seja o chefe, um pensamento ou preocupação, uma dor que não cede ou um telejornal inteiro) envia uma ordem às supra-renais para produzirem adrenalina – e a adrenalina faz com que o coração bata mais depressa, a tensão arterial aumente, o ritmo de respiração também, tal como o açúcar no sangue, e as pupilas dilatem. Tudo coisas muito boas como formas de energia e foco que nos dão a capacidade de reacção rápida para fugirmos ou para lutarmos – tudo muito útil sobretudo nos primórdios da humanidade, mas basicamente inútil nos exemplos modernos que acabei de lhe dar.

 

Com um pouco mais de calma, o cérebro envia também um sinal para se iniciar a activação do que se chama o eixo HPA – hipotálamo, pituitária, adrenais – na sequência do qual é fabricado cortisol, cuja função principal é aumentar o açúcar no sangue, que é o mesmo que dizer, o combustível que faz a nossa máquina funcionar.

 

E até aqui está tudo muito bem e não há qualquer problema. Se estivermos a falar de um incidente único. Sobretudo se for algo que faça sentido com esta reacção, como defrontarmo-nos com um mal-encarado de faca na mão, numa ruela escura a meio da noite… Stressámos, gerámos energia, usámos a energia para nos pôr a salvo, voltámos ao estado fisiológico normal com as supra-renais muito sossegadinhas da vida, contamos a história aos amigos e amanhã é um novo dia.

 

A reacção problemática começa com a constante activação desta cascata reactiva, muito particularmente sem necessidade de dar uso à energia que é criada, o que significa que acabei de descrever a larga maioria das situações actuais que o nosso cérebro identifica como ameaçadoras. E é problemática porque é um mecanismo de alarme que não foi desenhado para estar sempre na potência máxima, o que cria todo um conjunto de sintomas desagradáveis e que interferem no normal funcionamento além de que, muito pior do que isso, abre as portas à doença, dos mais variados tipos.

 

Ora sabermos identificar que estamos em plena reacção de stress crónico não é nada fácil… Se espirra, tosse e gasta lenços de papel como se não houvesse amanhã, não tem dúvidas que está constipado, certo? Acrescenta-lhe febre e dores no corpo e já sabe que tem uma valente gripe com que se entreter nos próximos dias. E, para muitos conjuntos de sintomas, mesmo que não os reconheça quando atacam, com uma conversa com amigos ou uma pesquisa rápida ao dr Google, fica logo com uma ideia quanto ao que possa ser e qual a rapidez com que deve ir fazer uma visita ao seu médico.

 

Já o stress é um bocadito mais complicado. Porque o conjunto possível de sintomas é muito elevado, expressa-se de formas diferentes em pessoas diferentes, a configuração pode ir sendo modificada ao longo da vida, etc, o que faz com que seja preciso um olho treinado para identificar o que se passa e, mesmo assim, por vezes, é necessário excluir primeiro outras possíveis hipóteses que justifiquem aquilo de que as pessoas se estão a queixar.

 

O que a maioria das pessoas não sabe é que há uma forma de saber se o stress crónico é, ou pode ser, o diagnóstico principal daquilo que sentem: um perfil circadiano de cortisol, habitualmente recolhido ao longo de um dia, em 4 momentos distintos.

Porque é que se analisam 4 momentos? Porque o cortisol no organismo, em condições normais, tem picos e vales: acordamos em alta, baixa muito até depois do almoço, ficando mais ou menos constante até meio da tarde e voltando a baixar um pouco na hora do ó-ó. As análises que se fazem ao cortisol visam determinar até que ponto os seus níveis de cortisol divergem deste padrão, sendo que uma curva mais achatada, regra geral, sugere a possibilidade de stress crónico.

 

Por isso, se anda a sentir-se mal, com sintomas que possam ser indicadores de stress mas tem dúvidas quanto a isso, pode pedir ao seu médico que prescreva uma análise ao seu perfil de cortisol. Habitualmente requer que mastigue uma espécie de esponja e cuspa para um tubinho 4 vezes num dia (meio nojento, não é?), ainda que também se possam analisar níveis de cortisol com análises ao sangue e até mesmo ao cabelo, mas isso é mais para determinar o valor absoluto e não tanto para estabelecer a curva de nível ao longo do dia.

 

E, claro, se não lhe apetecer andar a cuspir para tubinhos, talvez seja mais adequado pedir uma avaliação a um psicólogo especializado e experiente que, após uma hora lhe saberá dizer se o que sente pode ou não ser atribuído a um quadro de stress.

 

E para aprender a gerir os stress, para que ele não o afecte e semeie o caos no seu funcionamento e saúde? Deixo-o com a sugestão do nosso curso online, em regime de e-learning: “O stress e eu”.

 

 

 

 

23/05/2017

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